USP e Creche Estrela Azul: Parceria transforma o “chão da escola” com educação antirracista

Encontro entre a Faculdade de Educação e educadoras da Vila Progresso consolida ações práticas de letramento racial e novas estratégias pedagógicas para a primeira infância.

o último dia 27 de novembro, os muros da Universidade de São Paulo (USP) abriram-se para um intercâmbio vital. A Faculdade de Educação (FE) recebeu 27 profissionais da Creche Estrela Azul, instituição que atende 180 crianças na Favela do Boi, Zona Leste de São Paulo. O encontro “A Educação e os limites do ser humano”, mediado pelo jornalista Antônio Carlos Quinto, selou uma parceria que busca reduzir o “abismo” educacional e levar o conhecimento acadêmico diretamente para o cotidiano da educação básica.

Ações Práticas: O Impacto no Cotidiano da Escola

O reflexo dessa união entre universidade e comunidade já é visível nas salas de aula e no berçário. Motivada por desafios reais — como episódios de discriminação racial entre crianças de apenas quatro anos — a Creche Estrela Azul implementou uma série de ações estruturantes:

  • Mediação Qualificada de Conflitos: A direção e o corpo docente agora utilizam subsídios teóricos para intervir em disputas por brinquedos ou espaços que apresentem viés racial, transformando o conflito em oportunidade de aprendizado.
  • Revisão do “Cuidar e Educar”: Inspiradas por conceitos como areté (grego) e etê (tupi), discutidos com o Dr. Roberto C. G. Castro, as educadoras reforçaram o afeto e o amor como ferramentas políticas para potencializar o desenvolvimento de cada bebê.
  • Intencionalidade Pedagógica: A unidade escolar alinhou suas práticas de forma rigorosa ao Currículo da Cidade e às diretrizes do Currículo Antirracista, garantindo que o ensino não seja apenas recreativo, mas politicamente consciente.

O Currículo em Movimento: Cultura e Identidade

Para além da teoria, a escola enriqueceu seu repertório prático com atividades que celebram as matrizes africanas e indígenas:

  1. Literatura e Teatro: O uso de narrativas como “A Princesa de Calunga” e “Cartas de Maria” passou a ser central para valorizar a boneca preta e as identidades diversas.
  2. Expressão Artística: A capoeira e a dança foram integradas ao cotidiano escolar, culminando em apresentações culturais das próprias professoras, como a performance de “O Canto das Três Raças”.
  3. Valorização da Autoimagem: O foco das atividades mudou para a apresentação de aspectos positivos das culturas africanas, fortalecendo a autoestima das crianças negras e promovendo o respeito entre as crianças brancas.

Compromisso Social e Continuidade

A Coordenadora Pedagógica da unidade Waldete da Silva  destacou que a parceria cumpre a função social da universidade ao dialogar com quem cuida da comunidade. Para a Professora Mônica Teixeira (FE-USP) e os especialistas envolvidos, como Ana Paula Florindo Fernandes e o Mestre Valdenor, o objetivo é claro: combater o racismo estrutural desde o berço.

O sentimento de “missão cumprida” ao final do evento sinaliza que o modelo da Creche Estrela Azul deve servir de exemplo para futuros projetos de extensão. Ao democratizar o conhecimento, a USP e a creche reafirmam a educação como um exercício de liberdade e equidade social.

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